"O Melhor do Brasil é o Brasileiro"
Logo na primeira semana em que estive em Londres percebi algo um tanto incômodo. Chegávamos num Pub em torno das 17 horas para sair, no máximo, às 23 horas, quando fechava – sendo que geralmente íamos embora antes. A essa altura as ruas já estavam desertas. Os brasileiros, inclusive eu, se gabavam: “Se estivéssemos no Brasil, estaríamos saindo de casa agora.” Encher a cara, nem pensar; cada caneca te custava umas quatro Libras, que, pensando em reais, parecia uma fortuna. A única vez em que fiquei bêbado (o que rendeu alguns momentos desagradáveis, diga-se de passagem) foi quando compramos cerveja e vinho no supermercado, onde os preços eram mais acessíveis. E ainda existia a irritação em ver as lojas fechando às 19 horas, o último trem partindo à meia-noite, etc. Lá, o dia acabava mais cedo.
Além disso, as pessoas pareciam meio frias e indiferentes. Ficavam distantes umas das outras, sem muito contato físico, sem muita conversa. Cada um cuidando da sua própria vida. Uma vez vi uma garota desmaiando na estação de metrô – desconfio que acabara de receber a notícia de morte de algum parente ou coisa parecida, porque ela chorava e gritava em desespero. Ninguém olhava. Todos passavam sem desviar os olhos, como se nada tivesse acontecendo, semelhantes a robôs. Fiquei imaginando que, se fosse no Brasil, uma multidão já teria feito uma roda bisbilhoteira para saber o que estava acontecendo. Lá, no entanto, eles são menos curiosos.
Andavam rápido como se estivessem sempre atrasadas para o trabalho. Sem lerdeza, sem lenga-lenga. Seguiam regras precisas como ficar sempre do lado direito numa escada rolante; o esquerdo é reservado aos mais apressados. Enfim, meu ponto de vista me obrigava a ver essas coisas num tom perjorativo, e todo esse esquema e “apatia” acabaram me incomodando um pouco.
Mas aí comecei a observar melhor o comportamento daquele povo. Por trás daquele silêncio e conduta extremamente rígida havia algo que me atraía terrivelmente. Algo bom. Dias depois, estaria apaixonado pelo “jeitinho londrino de ser”. E, se dependesse de mim, teria ficado por lá mesmo.
Fui percebendo que as pessoas liam. Todas. Em qualquer meio de transporte, juro por Deus que era quase impossível ver alguém que não estivesse com um livro na mão. Reparei como tinham uma postura intelectual invejável. Lembro que bati o maior papo com um moleque de 14 anos sobre cinema. Ele queria ser cineasta quando crescesse. O rapaz tinha um gosto, digamos, “previsível”. Mas sabia argumentar, dizer por que gostava dos filmes, usava a inteligência de forma espantosa; incluia valores morais e filosofia para justificar seu gosto por um longa e tudo. Fiquei impressionado; raramento encontro, aqui, um cara da mesma idade com tal qualidade. Por fim, me dei conta de como as pessoas eram cultas e bem educadas e como se respeitavam. É claro que estamos falando de um dos melhores padrões de vida do mundo, não era de se esperar outra coisa.
E aí vi que elas não eram frias, rígidas, apáticas e sem graça. Eram, simplesmente, civilizadas. Se viam uma discussão na rua ou uma garota desmaiando, não paravam para olhar porque esses eventos não diziam respeito a elas - sem, é claro, serem negligentes. Bastava estar claro que estava tudo sob controle – no caso da menina caída, havia quatro amigas a ajudando. Se a regra era andar do lado direito da escada rolante, tinham as boas maneiras para obedecê-la. E também eram amigáveis e gentis à sua própria maneira. Seus modos “certos demais” eram o resultado de uma série de atividades admiráveis. Hoje sinto falta destas; se encontra com menos freqüência no Brasil.
Ainda assim, temos orgulho do nosso estilo completamente diferente deste descrito aí em cima. Dizemos que somos amigáveis com desconhecidos, calorosos, etc. E, até certo ponto, concordo. Só que existe um mal terrível nos brasileiros que é se orgulhar demais do seu comportamento, a níveis duvidosos.
Por exemplo, enchemos a boca ao dizer que somos mais soltos, despreocupados, sem frescuras, de bem com a vida, etc. Enquanto os londrinos estão se deitando na cama, os brasileiros ainda nem se vestiram para ir curtir a “night”. Quando o Sol nasce na Inglaterra, as crianças estão indo para a escola e os adultos para o trabalho, pontualmente, como máquinas; quando o Sol nasce aqui, estamos chegando em casa, cambaleantes, se jogando na cama e apagando em questão de segundos; já é dia e, num botequim próximo, uma voz débil ainda tem força para finalizar os últimos resquícios do samba que encheu o ar de toda a madrugada. Dizemos que tudo isso são baderneirices, mas que, no entanto, compõem a tal animosidade brasileira incomparável, o tal jeitinho espirituoso verde e amarelo. Sem que tais maneiras se apliquem à todos, ainda assim é a fama que queremos passar.
O problema é que essa conduta que adoramos pode ser o reflexo de algo do qual nunca poderemos nos orgulhar: uma insipiência, irresponsabilidade e malcriadagem que nos levam ao desleixo, à despreocupação; enfim, ao “jeitão brasileiro”, que, ironicamente, caracterizamos como uma das nossas maiores qualidades. Em outras palavraas, aqui há uma inversão. Enquanto na Inglaterra a conduta das pessoas revela uma sociedade intelectual e madura, no Brasil ela acaba revelando, de certa maneira, uma sociedade descompromissada de seus deveres e até mesmo ignorante. E isso não é bom e nem merece ser alvo de orgulho. Não vejo muita gente lendo, por exemplo. Não temos esse hábito. A ignorância evocada leva à intolerância e desrespeito; é paradoxal como um país com tamanha diversidade étnica e cultural ainda guarda tantos preconceitos.
Talvez estejamos tão preocupados em festejar e curtir o Carnaval e exibir nosso pique e espírito animado que esquecemos de que existem coisas mais importantes. Falta cultura, a postura rígida que estranhamos quando vamos a outro país mais desenvolvido. Falta a civilidade.
Estou usando a Inglaterra como referência porque foi onde estive por mais tempo. Mas dá para encontrar um panorama bastante semelhante na França, por exemplo – e de repente me sinto tão metido que fico com raiva de mim mesmo. Mas, falando sério, acho que é algo para ser pensado.
Gosto do Brasil, e muito. Gosto de sua beleza e de sua complexidade. Fico feliz quando, de vez em quando, sinto que estamos dando um passo à frente, mostrando sinais de desenvolvimento. Torço para que isso aconteça. Não quero dar a impressão que desejo denegrir a imagem do país, porque não é verdade. Mas me incomodo um bocado quando ouço dizer que o jeito dos brasileiros é incomparável e tudo. Sempre me dá uma sensação de que alguma coisa não está certa, de estarmos usando a embalagem perfeita para esconder de nós mesmos o conteúdo embaraçoso. De estarmos confundindo jovialidade com negligência.
“O Melhor do Brasil é o Brasileiro” é o slogan extraído da obra de Câmara Cascudo, usado pelo governo. Posso pensar em muitos “melhores” do Brasil. Mas não sei se o brasileiro é um deles.
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